Fábio Monteiro
Havaianas; da campanha à crise
A polêmica em torno do novo comercial das sandálias Havaianas recoloca no centro do debate um tema que vem se tornando recorrente e cada vez mais sensível na comunicação corporativa: o risco de campanhas publicitárias se tornarem gatilhos de crises de imagem em um ambiente social marcado por tensões, leituras apressadas e alta carga simbólica, capazes de gerar manchas duradouras na reputação e enquadramentos políticos que nem sempre são reais, intencionais ou coerentes com a trajetória das marcas.
Hoje, nenhuma campanha nasce em terreno neutro. Não apenas por escolhas criativas, mas porque toda mensagem lançada ao público passa a circular em um ambiente social profundamente polarizado, no qual símbolos, falas e narrativas são rapidamente apropriados por disputas ideológicas que extrapolam o controle de quem comunica. Nesse contexto, marcas podem ser empurradas para campos políticos que nunca decidiram ocupar e não por estratégia, mas por interpretação.
O equívoco mais comum é tratar esse tipo de situação como um simples “mal-entendido”. Isso já não neutraliza críticas, porque o que está em jogo não é apenas a mensagem em si, mas o choque entre a intenção – construída no contexto interno da criação da campanha – e a percepção, formada publicamente em uma sociedade que, nos últimos anos, perdeu espaço para leituras mais equilibradas e menos reativas.
É nesse ambiente que o risco reputacional se amplia. Ao ser associada a determinada pauta política ou ideológica, muitas vezes por uma interpretação pueril do discurso publicitário, a marca passa a carregar rótulos difíceis de remover. Esses enquadramentos tendem a ser rápidos, simplificados e, não raro, injustos, mas encontram terreno fértil para propagação.
O ambiente digital intensifica esse processo. Redes sociais não operam na lógica da ponderação, mas do engajamento emocional. Quanto mais polarizada a leitura, maior o alcance. Assim, campanhas concebidas para reforçar atributos e autoridade das marcas acabam funcionando como gatilhos para disputas simbólicas, nas quais a empresa se torna personagem involuntária de debates políticos, sociais ou culturais que não controla.
Há ainda um componente cultural que ajuda a compreender a reação observada em uma sociedade atravessada por tensões acumuladas nos últimos anos. A campanha acabou tangenciando uma premissa profundamente enraizada no imaginário brasileiro: a ideia de “entrar o ano com o pé direito”. Superstições, goste-se ou não delas, persistem no imaginário social. Quando a comunicação de uma marca toca nesses símbolos, entra em um campo delicado, onde a racionalidade do briefing nem sempre dialoga com a emocionalidade coletiva.
Tentar ressignificar conceitos culturalmente consolidados pode ser percebido como inovação criativa. Mas, em um ambiente social já tensionado, também pode ser lido como desconexão simbólica. Não porque a sociedade seja refratária à mudança, mas porque, em determinados temas, a reação antecede a reflexão.
O impacto desse conjunto de fatores vai além do desgaste imediato. Crises dessa natureza deixam registros persistentes, influenciam a confiança do público e afetam relações institucionais. Mesmo quando a polêmica perde intensidade, o rastro permanece, seja nos mecanismos de busca, nas redes ou na memória coletiva.
Por isso, o desafio contemporâneo não está apenas em criar campanhas criativas, mas em compreender o ambiente social em que elas serão lançadas. Publicidade, hoje, exige leitura de contexto, sensibilidade cultural e análise de risco reputacional. É preciso perguntar como a mensagem pode ser apropriada ou distorcida em um cenário social cada vez menos tolerante a interpretações simplistas.
Importa sublinhar que esta reflexão não se confunde com a defesa da autocensura. Trata-se de maturidade estratégica em um tempo em que marcas são constantemente pressionadas a assumir posições, no qual o silêncio pode ser lido como omissão e a palavra, como militância.
O episódio recente deixa uma lição clara: campanhas publicitárias hoje não enfrentam apenas o julgamento do mercado, mas o tribunal da opinião pública moldado pelo espírito do tempo. Como já advertia Aristóteles, cada um é senhor do seu silêncio e escravo de suas palavras. Comunicar deixou de ser apenas emitir mensagens. Passou a ser, sobretudo, gerenciar riscos de interpretação.
Fábio Monteiro é jornalista especialista em crise de imagem e CEO da Dialum Assessoria de Imprensa & Comunicação Estratégica.
A sociedade brasileira contemporânea tem sido marcada por uma profunda inversão de prioridades morais e políticas, na qual questões simbólicas e superficiais passam a ocupar maior centralidade no debate público do que problemas sociais estruturais. Esse fenômeno pode ser analisado à luz da sociologia crítica, especialmente a partir dos conceitos de sociedade do espetáculo (Debord), violência simbólica (Bourdieu) e polarização ideológica. Nesse contexto, observa-se que episódios banais frequentemente geram maior mobilização social do que tragédias concretas, como o feminicídio, expressão extrema da violência de gênero.
O feminicídio, enquanto fenômeno social, não pode ser compreendido como um conjunto de eventos isolados, mas como resultado de uma estrutura patriarcal historicamente consolidada, que naturaliza a violência contra as mulheres. No entanto, apesar de sua gravidade e recorrência, tal problema permanece frequentemente marginalizado no espaço público. Em contraste, a recente controvérsia envolvendo um comercial da marca Havaianas, estrelado pela atriz Fernanda Torres, provocou reações intensas de atores políticos e econômicos, evidenciando o que pode ser denominado indignação seletiva.
A peça publicitária utiliza um jogo semântico ao afirmar que não deseja que o público inicie o ano “com o pé direito”, propondo, em vez disso, começar “com os dois pés”, em referência à ação, ao engajamento e à totalidade do indivíduo. Ainda que a mensagem se situe no campo simbólico e publicitário, a reação de setores da direita política extrapolou o âmbito cultural, transformando o anúncio em um objeto de disputa ideológica. Esse deslocamento evidencia o avanço do sectarismo político, no qual qualquer manifestação cultural é imediatamente interpretada como um posicionamento partidário, anulando a possibilidade de leitura plural e racional.
Sob a perspectiva habermasiana, pode-se afirmar que há uma crise da esfera pública, caracterizada pela perda do debate argumentativo orientado pela razão. O espaço público deixa de ser um local de deliberação coletiva e passa a funcionar como um campo de confrontos morais e emocionais, nos quais prevalecem discursos simplificados e dicotômicos. Nesse ambiente, problemas sociais complexos, como a violência de gênero, são obscurecidos por polêmicas artificiais que exigem baixo custo cognitivo e não demandam enfrentamento estrutural.
Entre no grupo do Folha360 no WhatsApp e receba notícias em tempo real (CLIQUE AQUI).
Colombiano fratura tornozelo da companheira após sessão de espancamento em Cuiabá
Carlos diz que Jair Bolsonaro teve pressão arterial elevada e pode passar por nova cirurgia
Bombeiros continuam buscas por desaparecidos após naufrágio de embarcação no Manso
Motociclista morre após perder controle de direção e cair na Avenida dos Torres
Indignação seletiva
GRANDE CUIABÁ
SES distribui 96 mil doses de vacina contra a gripe aos municípios
A Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT) recebeu 96 mil doses do imunizante contra a gripe (influenza) do Ministério da...
Desenhos de estudantes da rede estadual são expostos na Viradinha Sustentável
Desenhos de estudantes de 102 escolas da rede estadual de ensino compõem a exposição ‘Varal de Desenhos – Clima em transformação,...
Cuiabá amplia vacinação contra Influenza para toda a população a partir de 6 meses de idade
Em consonância com as diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Saúde, a Secretaria Municipal de Saúde ampliou, a partir dessa quinta-feira...
MATO GROSSO
Justiça rejeita denúncia de ativista animal contra servidora pública de Cuiabá
O juiz Valter Fabrício Simioni da Silva, da 10ª Vara Criminal de Cuiabá, rejeitou a queixa-crime movida pelo ativista da...
Mulher com deficiência auditiva morre após confusão em UPA na Capital
Uma paciente identificada como Arinalva Maria da Silva Soares, de 45 anos, morreu após sofrer uma parada cardiorrespiratória na Unidade...
Lula exonera Carlos Fávaro e outros dois ministros para garantir emendas ao Orçamento de 2026
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) exonerou temporariamente Carlos Fávaro (PSD), ministro da Agricultura e Pecuária, e outros...
POLÍCIA
Colombiano fratura tornozelo da companheira após sessão de espancamento em Cuiabá
A Polícia Civil de Mato Grosso prendeu, nesta segunda-feira (29.12), um homem de nacionalidade colombiana, de 34 anos, investigado por...
Preso por tráfico, vereador do PL tenta justificar faltas e evitar cassação em MT
A Câmara Municipal de Curvelândia negou o pedido de justificativa de oito faltas apresentado pela defesa do vereador Roberto Serenini...
Ex-secretário de Querência é preso por violência doméstica e descumprimento judicial
A prisão de um ex-integrante da alta gestão municipal de Querência reacendeu o alerta sobre reincidência em casos de violência...
ENTRETENIMENTO
Zé Felipe e Ana Castela se separam após dois meses de namoro
Zé Felipe, de 27 anos de idade, anunciou o fim do namoro com a sertaneja Ana Castela, de 22 anos, na...
Mulher que diz ter se relacionado com Neymar mostra ultrassom de grávida
Any Awuada tem movimentado as redes sociais desde que seu nome foi associado com o de Neymar. A influencer, que afirmou ter...
Alexandre Suita estreia como repórter da Rede TV
Influenciador entrevistou Deia Cypri e Edson da dupla Edson & Hudson Alexandre Suita, ex- participante da primeira edição de ‘A...
ESPORTES
Diogo Jota, atacante do Liverpool, morre em trágico acidente na Espanha
Diogo Jota, atacante do Liverpool e da seleção portuguesa, e seu irmão André Silva, jogador do Penafiel, de Portugal, morreram...
Justiça suspende eleição da Federação Mato-grossense de Futebol minutos antes da votação
A eleição que definiria a nova diretoria da Federação Mato-grossense de Futebol (FMF) para os próximos quatro anos foi suspensa...
Invicto no Accioly, Cuiabá encara Atlético-GO de olho na liderança da Série B
O Cuiabá entra em campo nesta terça-feira (22), às 18h30 (horário de Mato Grosso), contra o Atlético-GO, pela quarta rodada...
MAIS LIDAS DA SEMANA
-
POLÍCIA5 dias agoTentativa de assalto no Tijucal termina com um morto e um preso
-
CIDADES1 dia agoMenino de 8 anos vira herói após naufrágio no Lago de Manso; pai e piloto seguem desaparecidos
-
Política6 dias agoAlisson destaca eficiência institucional após aprovação no TCE
-
CIDADES7 dias agoBombeiros localiza criança de quatro anos que desapareceu em área de mata




