Marajaísmo Togado

Acima do teto, remuneração de juízes engorda com penduricalhos

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A um humilde mortal saber a remuneração exata de um membro da magistratura brasileira é quase impossível. No entanto, há como ter uma noção ao conferir fatos e informações que já são de domínio público, por meio de matérias e apurações jornalísticas. Em 2024, por exemplo, com vários e criativos “penduricalhos” os salários de juízes e integrantes do Ministério Público saltaram o teto constitucional e atingiram R$ 10,5 bilhões. Com isto, a média mensal ficou em R$ 60 mil, superando o teto do Supremo Tribunal Federal (STF).

Todavia, o engorduramento salarial não parou por aí. No Paraná, os sortudos magistrados foram atendidos pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) em uma “nobre causa”: a autorização, em despacho sigiloso, para que tivessem direito ao pagamento retroativo de quase R$ 1 bilhão. Quem autorizou foi o corregedor nacional de Justiça, Mauro Campbell Marques, endossando uma decisão interna do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) para pagar a “licença compensatória”. Este é o benefício que dá um dia de folga, revertida em pagamento, para cada três dias trabalhados em regime de acúmulo de função.

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A sinecura secreta teve o lastro da desembargadora Lidia Maejima, presidente do tribunal. Ela atendeu à Associação dos Magistrados do Paraná (Amapar), que pedia o pagamento das licenças desde 2015. E assim, os cofres públicos da corte desembolsam R$ 931 milhões. Com um detalhe sintomático: por ter caráter indenizatório, o pagamento fica fora do teto da magistratura, que é R$ 46.366,19.

O Tribunal de Justiça do Paraná é composto de 951 magistrados. Dos quase R$ 1 bilhão da folha extra, R$ 615 milhões vão para os juízes de primeiro grau; R$ 257 milhões aos desembargadores; R$ 57 milhões aos aposentados; e R$ 636 mil aos exonerados. Nas contas individuais, cada um dos desembargadores poderá receber, em média, quase R$ 2 milhões só em valores retroativos, por exemplo.

REAÇÕES – A seccional paranaense da Ordem dos Advogados do Brasil protestou contra o teor da decisão e à sua oficialização em caráter sigiloso. A Ordem encaminhou um ofício ao corregedor pedindo acesso aos documentos que continuam sob sigilo. Seu presidente, Luiz Fernando Casagrande Pereira, enfatizou: “A OAB tem uma posição reiterada várias vezes, no sentido de defender uma remuneração digna aos magistrados, que garante independência e autonomia da carreira, atratividade da carreira, mas dentro do teto constitucional. Essas notícias corroem a imagem do Poder Judiciário, e isso não é bom nem para os juízes”.

Um Projeto de Lei – o PL 2.721/2021 – para regulamentar o teto salarial do funcionalismo público e impedir os chamados “supersalários” na magistratura e em outras carreiras foi aprovado em 2021 pela Câmara dos Deputados, porém está na “geldeira” do Senado há mais de um ano, enfrentando resistências e pressões do Judiciário e do Ministério Público.

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O subsídio de um ministro do STF é de R$ 46.366,19 desde fevereiro de 2025.Atualmente, verbas indenizatórias e similares, como os auxílios moradia e alimentação e conversão de férias não gozadas em dinheiro ficam de fora desse limite, permitindo que magistrados e outros servidores recebam valores que ultrapassam R$ 100 mil em um único mês.

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Pinga Fogo

Quilombolas de Poconé denunciam ameaças e danos ambientais em território tradicional

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A Comunidade Quilombola Carretão, localizada na zona rural de Poconé (MT), completa mais de uma década imersa em um conflito fundiário que parece longe de um desfecho. Com processos judiciais arrastados desde 2013, as famílias remanescentes relatam um cenário de cerceamento de direitos, impactos ambientais severos e um clima de insegurança que já forçou a saída de diversos moradores do território ancestral.

O caso ganhou um novo capítulo no início de julho de 2026, com uma visita técnica do Ministério Público Federal (MPF) à região. A diligência buscou colher depoimentos e observar in loco as condições das famílias que reivindicam a regularização da área, atualmente ocupada por dois produtores rurais.

Memória e fé sob cadeados

Uma das denúncias mais sensíveis apresentadas pela comunidade envolve o impedimento de acesso ao antigo cemitério local. Segundo os quilombolas, o espaço abriga antepassados sepultados há cerca de três séculos. O fechamento de porteiras com cadeados teria interrompido rituais de visitação e manutenção, ferindo não apenas o direito possessório, mas o patrimônio histórico e cultural da comunidade.

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O “Córrego do Nilo” e o rastro da seca

No campo ambiental, os moradores apontam intervenções que teriam alterado o curso de nascentes para favorecer a atividade agropecuária. O histórico “Córrego do Nilo”, essencial para o abastecimento das famílias, teria sofrido desvios por meio de canais de drenagem, resultando em valas secas onde antes a água corria naturalmente. Até o momento, órgãos ambientais ainda não emitiram laudos públicos que confirmem a extensão dos danos.

Rastro de violência e medo

A disputa também é marcada por um histórico de violência. Lideranças afirmam que mais de 15 boletins de ocorrência foram registrados em Poconé e Várzea Grande nos últimos anos. Os relatos incluem ameaças diretas e disparos de arma de fogo próximos às residências, táticas de intimidação que, segundo a comunidade, visam expulsar os remanescentes da área em litígio.

O caminho da Justiça

Embora os quilombolas questionem a validade de documentos cartoriais apresentados pelos ocupantes, o Poder Judiciário ainda não proferiu uma decisão definitiva sobre possíveis fraudes ou ilegalidades.

A reportagem mantém o espaço aberto para as manifestações dos produtores rurais citados, do Incra e das demais autoridades mencionadas. A expectativa agora recai sobre os desdobramentos da visita do MPF, que pode acelerar a solução de um conflito que atravessa gerações e mantém em xeque a segurança jurídica e a dignidade da Comunidade Carretão.

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