Uma servidora da Secretaria Estadual de Saúde (SES) e um policial militar são os principais alvos da Operação Laço Oculto, deflagrada pela Polícia Civil nesta terça-feira (21). Eles são acusados de integrar um esquema de extorsão que causou prejuízo de R$ 1,1 milhão a uma servidora pública, colega de trabalho de uma das investigadas.
De acordo com as investigações conduzidas pela Delegacia Especializada de Roubos e Furtos (Derf) de Cuiabá, o grupo — que inclui ainda uma terceira pessoa — submeteu a vítima a um regime de “terrorismo psicológico” durante três anos. A servidora foi convencida de que possuía dívidas com agiotas que cresciam com juros altíssimos, o que a levou a contrair empréstimos, financiar uma caminhonete para o marido da principal suspeita, utilizar recursos da construção de sua casa e transferir parte do salário para pagar a suposta dívida.
Ao todo, estão sendo cumpridos cinco mandados de busca e apreensão domiciliar, um mandado de busca e apreensão de veículo, cinco mandados de sequestro de bens e três ordens de bloqueio de ativos financeiros. As ordens de bloqueio, direcionadas a três investigados, podem alcançar, somadas, mais de R$ 3,3 milhões.
As diligências ocorrem em endereços de Cuiabá e Várzea Grande. Entre os alvos estão servidores públicos da SES, um policial militar e pessoas relacionadas ao fluxo financeiro identificado durante a investigação.A SES colaborou com as investigações, embora não tenha envolvimento direto com o caso. A Corregedoria da Polícia Militar também participa do cumprimento das ordens judiciais.
Segundo o inquérito policial, a vítima foi submetida, entre 2022 e 2025, a um contínuo processo de intimidação e manipulação psicológica por uma colega de trabalho. A investigada teria criado uma narrativa envolvendo supostas dívidas com agiotas e ameaças contra a vítima e seus familiares, passando a exigir pagamentos sucessivos.
Mantida em permanente estado de medo, a servidora realizou empréstimos, saques em cartões de crédito, resgate de recursos da previdência privada e utilizou dinheiro destinado à construção de sua residência. Também foi convencida a financiar, em seu próprio nome, uma caminhonete que seria utilizada por pessoa ligada à principal suspeita.
O esquema só foi interrompido quando o marido da vítima percebeu seu abalo emocional, descobriu o que estava acontecendo e impediu a continuidade do contato com a investigada, denunciando o caso à polícia.
A colega de trabalho convenceu a vítima de que ambas estavam sendo ameaçadas por agiotas por causa de uma suposta dívida envolvendo outro servidor público. A investigada dizia que os criminosos sabiam quem elas eram e poderiam atacar seus familiares caso os pagamentos não fossem realizados. Ao mesmo tempo, apresentava-se como vítima e afirmava que poderia negociar a dívida e protegê-la.
Com medo, a vítima passou a transferir dinheiro para a própria colega. As cobranças continuaram entre 2022 e 2025, sempre acompanhadas de novas ameaças e da alegação de que a dívida e os juros estavam aumentando.
A investigação demonstrou que a vítima transferiu R$ 1.132.680 diretamente para a conta da colega de trabalho. O valor foi confirmado mediante afastamento judicial do sigilo bancário e análise financeira realizada pelos analistas da Polícia Civil.
O rastreamento financeiro apontou que parte dos recursos recebidos foi posteriormente transferida para outras pessoas vinculadas ao núcleo investigado. Também foram identificadas movimentações bancárias incompatíveis com os rendimentos formais dos envolvidos, utilização de contas com elevada rotatividade, milhares de saques em espécie e possível utilização de pessoas “laranjas” para circulação e ocultação patrimonial.
Todas as medidas foram deferidas pelo Núcleo de Justiça 4.0 do Juiz das Garantias – Polo Cuiabá, após manifestação favorável do Ministério Público. A decisão autorizou ainda a apreensão de veículos e outros bens possivelmente relacionados ao proveito do crime, bem como a extração e análise dos dados armazenados nos dispositivos eletrônicos apreendidos.
O nome Laço Oculto faz referência ao vínculo de medo e dependência psicológica criado para manter a vítima submetida às exigências financeiras, enquanto o dinheiro era transferido e dispersado entre pessoas relacionadas ao esquema.
A operação tem como principais objetivos localizar e recuperar os valores retirados da vítima, além de apreender documentos, aparelhos eletrônicos e outros elementos que possam esclarecer a participação de cada investigado e subsidiar a apuração de eventuais crimes de agiotagem e lavagem de dinheiro.
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