A Polícia Civil ouviu nesta segunda-feira (17) o subtenente da Polícia Militar Joarez Candido Silva, que manteve uma conversa de aproximadamente oito minutos com Fabiano Oliveira Borges, conhecido como “Pépi”, apontado como suspeito de matar a namorada, Ana Cristina Pacheco Matos, de 20 anos, em Cuiabá. Segundo o delegado Bruno Abreu, o policial afirmou em depoimento que tentou convencer o investigado a se entregar, que queria ser “o herói da situação” e até receber uma bonificação pela captura. O delegado não acredita na versão.
O contato entre os dois chamou a atenção da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) porque o militar já sabia que Fabiano era procurado pelo feminicídio quando tentou falar com ele. A conversa foi descoberta durante as diligências realizadas na loja do suspeito, a Pépi Cell, no bairro Alvorada, onde os investigadores encontraram um computador ligado e com o WhatsApp Web conectado.
Segundo Bruno Abreu, o policial explicou que já conhecia Fabiano porque costumava levar aparelhos celulares para manutenção na assistência técnica do suspeito. Ao ver a divulgação de que “Pépi” era procurado por feminicídio, decidiu entrar em contato com ele.
“O policial disse que conhece o suspeito porque ele arruma telefone na assistência dele. Quando ele viu a foto do Pépi, que estava sendo procurado por feminicídio, entrou em contato com ele, mas o suspeito não atendeu”, relatou o delegado.
Ainda conforme o depoimento, aproximadamente 10 minutos depois, Fabiano retornou a ligação. Os dois permaneceram conversando por cerca de 8 minutos. O policial teria afirmado aos investigadores que o objetivo era convencer o suspeito a se entregar.
“A versão apresentada pelo policial é de que ele estava tentando fazer o cara se entregar”, explicou Bruno.
Apesar da justificativa apresentada pelo militar, o tempo de duração da conversa levantou questionamentos na investigação. Para o delegado, o fato de o suspeito, que acabara de cometer um feminicídio e estava sendo procurado pelas forças de segurança, permanecer por vários minutos ao telefone com um policial merece ser esclarecido.
“Agora, um suspeito que acaba de matar a namorada está falando com o policial militar pelo telefone. Eu acho difícil um suspeito ficar 8 minutos com um PM dando essa brecha, se ele não tivesse alguma confiança. Isso dá tempo de você rastrear, identificar e tentar prender”, afirmou Bruno Abreu.
O delegado também destacou que Fabiano poderia simplesmente ter encerrado a ligação caso não confiasse na pessoa do outro lado. Para a Polícia Civil, o fato de o suspeito ter retornado a ligação pode indicar que havia algum grau de confiança entre os dois, embora o conteúdo da conversa ainda precise ser esclarecido.
“Ele não iria ficar 8 minutos no telefone com um estranho. Se ele não confiasse naquela pessoa, provavelmente não daria essa abertura”, disse o delegado.
Outro ponto analisado pela investigação é o fato de o policial não ter comunicado imediatamente o contato com Fabiano aos superiores. Naquele momento, equipes da Polícia Militar, incluindo integrantes do 9º Batalhão, estavam mobilizadas para localizar o suspeito.
“O que me chamou atenção foi ele não comunicar ao superior imediato que estava conversando com o suspeito, enquanto toda a Polícia Militar estava procurando esse homem naquele dia”, afirmou Bruno Abreu. Segundo o delegado, o militar só teria informado sobre a conversa posteriormente, quando descobriu que os investigadores já tinham conhecimento do contato.
Apesar dos questionamentos, Bruno Abreu ressaltou que a investigação ainda não concluiu que o policial tenha colaborado com a fuga ou favorecido o suspeito. O objetivo, neste momento, é esclarecer o contexto da ligação, a relação entre os dois e o conteúdo da conversa. Após a oitiva, ele foi liberado.
Em nota, a PM reforçou a versão de que o militar conversou com o suspeito na tratativa para ele se entregar. Apontou ainda que a PM está empenhada nas buscas e prisão de Pépi.
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